Matéria publicada na Revista O Globo em agosto de 2008. 15 endereços na internet onde os autores liberam livros, CD, filmes e fotos de graça. Checados, todos ainda disponíveis.
MÚSICA
http://albumvirtual.trama.uol.com.br/
http://www.freeplaymusic.com/
http://mmrecords.com.br/
http://www.overmundo.com.br/overmixter/
http://www.jamendo.com/en/
HQ
http://www.acervohq.quadrinho.com/capa/
MULTIMÍDIA
http://www.archive.org/index.php
EDUCAÇÃO
http://www.ocwconsortium.org/
http://www.futuratec.org.br/
CIÊNCIA
http://www.plos.org/
VÍDEO
http://pirex.com.br/
IMAGENS
http://www.openclipart.org/
http://www.flickr.com/photos/ciadefoto
LIVROS
http://www.editoradobispo.com.br/site/
BIBLIOTECA NACIONAL
http://bndigital.bn.br/
sábado, 3 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Dia de Rio de Janeiro


É possível se ficar totalmente
insensível diante da emoção do outro?
Creio que a única forma de consegui-lo é se isolar. No momento em que se entra em contato com outros seres, é acionado o mecanismo da socialização (seja lá o que for) e algo começa a repercutir dentro de nós. Começa no cérebro, óbvio, que é o que comanda tudo: pernas, braços, músculos (inclusive este que leva a fama de ser o centro das emoções - o coração).
É por isso que esse ser que não se identifica com outros seres e suas emoções ou regras sociais é chamado de sociopata. Outra história.
Bem, a história de hoje é a alegria da cidade pela conquista do direito de sediar as Olimpíadas em 2016. Considerando-se a penúria em que todos achamos que vivemos, chega a ser meio patético - parecia até esquizofrênica a discussão na GloboNews (que enfiou, entre as naturais imagens de comemorações por todo o país e em Copenhagen, e de tristeza das cidades que estavam na disputa, e até mesmo o cumprimento do Presidente Obama, a reação em Tegucigalpa. Ora, faça-me o favor. WHO CARES???), por um lado mostrando alegria até mesmo por parte de sua correspondente na Europa, sinceramente emocionada, e por outro, fazendo questão de destacar os grandes problemas que temos de resolver nesses 16 anos - que não são poucos.
Bom, sugiro que troquem a mala do Zelaya pelas Olimpíadas. Certamente o assunto é mais importante e útil para nós.
Enfim, para o carioca, qualquer motivo é de festa, e esta começou antes mesmo do anúncio na praia de Copacabana. O São Jorge estava em frente ao Copacabana Palace.
Alguns estavam desligados, como o motorista do táxi a quem perguntei se sabia do horário da divulgação. E olhe que o rádio do carro estava ligado na CBN!
Fui trabalhar, esqueci do assunto tb, e saí sem olhar para o relógio, entro no Shopping Rio Sul, e quando vou subir a escada rolante, vejo um monte de gente, e o grito da multidão! Arrepio, sorriso instantâneo. É a reação natural, não tem jeito. Precisa-se ser insensível, como disse. Ainda bem que não sou. Estou viva.
Resolvi dar uma conferida na Av. Atlântica. Afinal, sempre é bom garantir que se está viva - depois a gente continua a criticar, pq assunto não falta. Nesse ínterim, é agir para mudar.
Já dizia Zé Ramalho:
Bate, bate, bate coração,
Dentro desse velho peito
Você já está acustumado a ser maltratado
A não ter direito
Bate, bate, bate coração,
Não ligue deixe quem quiser falar
Porque o que se leva dessa vida coração
É o amor que a gente tem p´rá dar
VOTE EARTH
earthhour We'd love it if you mentioned Earth Hour Copenhagen and #voteearth on http://www.blogactionday.org :)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Copiando
Estou mais uma vez fazendo a faxina na caixa postal. Achei este link, e (re)descobri pq guardei. O texto é fantástico e foi publicado originalmente na Folha Online.
17/07/2006
Apesar de notório, o complexo de Édipo não é entendido pela maioria dos que o citam. Eu mesmo nunca li o texto original. Peço a Ramon, o revisor amoroso, que encomende ao analista (de seu ilustre círculo de relacionamentos) um texto de divulgação científica (pros fracos) sobre o significado propriamente freudiano do complexo complexo. Luiz Pinheiro, que entra em férias, como eu (volto na segunda semana de agosto), não deverá se manifestar dessa vez.
Feitas as necessárias e humildes ressalvas, exponho o que entendi do tema a partir de leituras de segunda mão, conversas com psicanalistas e alguns anos de análise: o complexo de Édipo é uma construção intelectual (um modelo teórico apenas, pois não há comprovação científica) arquitetada para explicar o momento fundamental da infância, talvez de toda a vida: o primeiro em que nossa visão de mundo é fortemente agredida pela realidade, o primeiro questionamento crítico importante que fazemos sobre a percepção fantástica, fantasiosa que, crianças, todos temos da vida.
A finalidade crucial desse acontecimento é a conquista da humildade e, quase paradoxalmente, da segurança pessoal. O édipo é uma lição baseada num trauma. Como uma vacina, que tira do veneno a salvação, o édipo tira do trauma a nossa futura capacidade de suportar frustrações, principalmente as das áreas do amor e da auto-estima.
A lição ou o trauma (quando não se aprende a lição) nos acompanhará e guiará por toda a jornada que teremos em seguida sobre o planeta: uma odisséia para todos, uma tragédia para muitos, para as quais nos preparamos, sem saber que nos preparamos, numa idade em que seria tão bom que tudo fosse apenas sonhos. Paulo Francis, que gostava de repetir que a realidade é melhor do que sonhos, afirmava também recorrentemente que não há época mais triste do que a infância. Talvez falasse da própria, mas, da minha, me lembro claramente do desamparo e da solidão, apesar dos pais amorosos que tive. Dois pezinhos na depressão ou a tristeza infantil é verdade universal, comum a todos?
O trauma se dá quando a criança percebe que aqueles dois que estavam ali só para cuidar dela, dedicar todo o amor apenas a ela, têm um lance entre si. Papai e mamãe têm segredos, têm vida própria e comum, cumplicidades. Então, o pequeno ser, incapaz de racionalizar e usar a linguagem para expressar os sentimentos terríveis que emergem dentro de si diante das novas constatações, descobre que monstro existe, sim, pelo menos um, mas muito, muito assustador, terrível, horrível e, ainda por cima, de olhos verdes. E não consegue nomear o monstro, nem consegue apontá-lo para papai e mamãe e perguntar o nome. Se pudesse ouviria "ora, é o Ciúme. Nenê tá com ciúme, minha coisinha linda tá com ciuminho? Meu anjo, liga não, papai te adora, filhinho, mamãe te ama mais do que tudo nesse mundo".
O amor daqueles dois não é apenas dele. Ele não tem exclusividade, como acreditava e baseava, sem saber, toda a sua felicidade, sua onipotência, seus super-poderes, naquela atenção falsamente incondicional. A auto-estima vai a zero, uma criancinha vive uma desilusão de gente grande. Se tiver condições adequadas para lidar com a percepção brutal, ela aprenderá duas lições básicas: a de que não é exclusivo e que o amor que lhe sobra é suficiente para sobreviver. Se tiver condições adequadas: pais amorosos e capazes de acompanhar o filho nessa desilusão, e, não menos importante, a capacidade de suportar sofrimento com a qual a criança já nasce, algumas com mais, outras com menos, distribuídas segundo a lei de Deus.
(Nasrudin tinha um pacote de balas na mão e disse para um grupo de meninos que estava por perto: Vou dar essas balas para vocês, vocês querem que eu distribua segundo a lei dos homens ou segundo a lei de Deus? Segundo a lei de Deus, a lei de Deus, disseram os meninos. Então Nasrudin deu uma bala para um menino, duas para outro, o resto do saquinho para outro e deixou todos os outros chupando dedo. Eles reclamaram e Nasrudin respondeu: Ora, foram vocês que escolheram a lei de Deus. Igualdade é lei dos homens)
Alguém com o édipo bem resolvido (pelo que tenho visto por aí, outra fantasia) seria capaz da humildade de não precisar ser exclusivo de ninguém, ou seja, seria capaz da segurança de não precisar ser exclusivo de ninguém. E estaria vacinado contra o vírus VERME MONSTRO de olhos verdes.
Dois livros que li recentemente recendem a édipo mal resolvido, 'Memória de minhas putas tristes', de Garcia Marques, e 'O paraíso é bem bacana", de André Sant'anna. No primeiro, um homem de 90, que só transou com putas a vida toda, sofre o nascimento de uma "nova" fantasia amorosa; no segundo, um menino pobre, negro, brasileiro, filho de uma mãe bêbada, vai encontrar no Islã, na Alemanha, a felicidade amorosa das 72 virgens prometidas ao fiel que se sacrificar em nome do Alá da guerra santa.
O édipo não tem idade, endereço, classe social. Rico, pobre, índio, paquistanês, hutu, piauiense, araraquarense, japonês, físico nuclear, ginecologista, Hebe Camargo, Materazzi, Zidane, a perua do Senhor, Bento dezesseis, dezessete, dezoito, Heloísa Helena, Oriana, a petista esclarecida, Angelina Jolie, os filhinhos de Angelina Jolie com Brad Pitt, mesmo os batizados lá naquele país afro-medieval, Michael Jackson, George Michael, Michael Jordan, todos têm, todos passam pelo próprio, e único édipo. Condição humana das brabas, Santo Graal cheio de sangue humano. Quem não o viveu adequadamente quando criança estará condenado a repeti-lo até aprender sua dura lição.
Mil vezes a santidade, a castidade, o heroísmo, as drogas, o vício, a ideologia, o crime, a idolatria, o contrabando de armas na África, a troca de casais, trocar de cônjuge, faustão aos domingos: qualquer coisa é melhor do que encarar o próprio édipo na fase adulta. O édipo é bom de ser vivido quando a gente é criança, antes de pôr aparelho nos dentes.
Pra não pegar sotaque, né?"
17/07/2006
Édipo e Nasrudin
"O complexo de Édipo é mais famoso que a tragédia de Édipo. Freud queria seu nome gravado em pedra. Conseguiu. Não se pode afirmar, mas, pela detalhada biografia escrita por Peter Gay, pode-se deduzir que Freud tinha um pezinho na depressão. O outro estava fincado firmemente no desejo de ser famoso, de ser um grande homem. Enfim, um pobre diabo como todos nós, que fez sua limonada de dois limões que a vida lhe deu: a melancolia e o desejo de ser mais do que apenas um homem comum.Apesar de notório, o complexo de Édipo não é entendido pela maioria dos que o citam. Eu mesmo nunca li o texto original. Peço a Ramon, o revisor amoroso, que encomende ao analista (de seu ilustre círculo de relacionamentos) um texto de divulgação científica (pros fracos) sobre o significado propriamente freudiano do complexo complexo. Luiz Pinheiro, que entra em férias, como eu (volto na segunda semana de agosto), não deverá se manifestar dessa vez.
Feitas as necessárias e humildes ressalvas, exponho o que entendi do tema a partir de leituras de segunda mão, conversas com psicanalistas e alguns anos de análise: o complexo de Édipo é uma construção intelectual (um modelo teórico apenas, pois não há comprovação científica) arquitetada para explicar o momento fundamental da infância, talvez de toda a vida: o primeiro em que nossa visão de mundo é fortemente agredida pela realidade, o primeiro questionamento crítico importante que fazemos sobre a percepção fantástica, fantasiosa que, crianças, todos temos da vida.
A finalidade crucial desse acontecimento é a conquista da humildade e, quase paradoxalmente, da segurança pessoal. O édipo é uma lição baseada num trauma. Como uma vacina, que tira do veneno a salvação, o édipo tira do trauma a nossa futura capacidade de suportar frustrações, principalmente as das áreas do amor e da auto-estima.
A lição ou o trauma (quando não se aprende a lição) nos acompanhará e guiará por toda a jornada que teremos em seguida sobre o planeta: uma odisséia para todos, uma tragédia para muitos, para as quais nos preparamos, sem saber que nos preparamos, numa idade em que seria tão bom que tudo fosse apenas sonhos. Paulo Francis, que gostava de repetir que a realidade é melhor do que sonhos, afirmava também recorrentemente que não há época mais triste do que a infância. Talvez falasse da própria, mas, da minha, me lembro claramente do desamparo e da solidão, apesar dos pais amorosos que tive. Dois pezinhos na depressão ou a tristeza infantil é verdade universal, comum a todos?
O trauma se dá quando a criança percebe que aqueles dois que estavam ali só para cuidar dela, dedicar todo o amor apenas a ela, têm um lance entre si. Papai e mamãe têm segredos, têm vida própria e comum, cumplicidades. Então, o pequeno ser, incapaz de racionalizar e usar a linguagem para expressar os sentimentos terríveis que emergem dentro de si diante das novas constatações, descobre que monstro existe, sim, pelo menos um, mas muito, muito assustador, terrível, horrível e, ainda por cima, de olhos verdes. E não consegue nomear o monstro, nem consegue apontá-lo para papai e mamãe e perguntar o nome. Se pudesse ouviria "ora, é o Ciúme. Nenê tá com ciúme, minha coisinha linda tá com ciuminho? Meu anjo, liga não, papai te adora, filhinho, mamãe te ama mais do que tudo nesse mundo".
O amor daqueles dois não é apenas dele. Ele não tem exclusividade, como acreditava e baseava, sem saber, toda a sua felicidade, sua onipotência, seus super-poderes, naquela atenção falsamente incondicional. A auto-estima vai a zero, uma criancinha vive uma desilusão de gente grande. Se tiver condições adequadas para lidar com a percepção brutal, ela aprenderá duas lições básicas: a de que não é exclusivo e que o amor que lhe sobra é suficiente para sobreviver. Se tiver condições adequadas: pais amorosos e capazes de acompanhar o filho nessa desilusão, e, não menos importante, a capacidade de suportar sofrimento com a qual a criança já nasce, algumas com mais, outras com menos, distribuídas segundo a lei de Deus.
(Nasrudin tinha um pacote de balas na mão e disse para um grupo de meninos que estava por perto: Vou dar essas balas para vocês, vocês querem que eu distribua segundo a lei dos homens ou segundo a lei de Deus? Segundo a lei de Deus, a lei de Deus, disseram os meninos. Então Nasrudin deu uma bala para um menino, duas para outro, o resto do saquinho para outro e deixou todos os outros chupando dedo. Eles reclamaram e Nasrudin respondeu: Ora, foram vocês que escolheram a lei de Deus. Igualdade é lei dos homens)
Alguém com o édipo bem resolvido (pelo que tenho visto por aí, outra fantasia) seria capaz da humildade de não precisar ser exclusivo de ninguém, ou seja, seria capaz da segurança de não precisar ser exclusivo de ninguém. E estaria vacinado contra o vírus VERME MONSTRO de olhos verdes.
Dois livros que li recentemente recendem a édipo mal resolvido, 'Memória de minhas putas tristes', de Garcia Marques, e 'O paraíso é bem bacana", de André Sant'anna. No primeiro, um homem de 90, que só transou com putas a vida toda, sofre o nascimento de uma "nova" fantasia amorosa; no segundo, um menino pobre, negro, brasileiro, filho de uma mãe bêbada, vai encontrar no Islã, na Alemanha, a felicidade amorosa das 72 virgens prometidas ao fiel que se sacrificar em nome do Alá da guerra santa.
O édipo não tem idade, endereço, classe social. Rico, pobre, índio, paquistanês, hutu, piauiense, araraquarense, japonês, físico nuclear, ginecologista, Hebe Camargo, Materazzi, Zidane, a perua do Senhor, Bento dezesseis, dezessete, dezoito, Heloísa Helena, Oriana, a petista esclarecida, Angelina Jolie, os filhinhos de Angelina Jolie com Brad Pitt, mesmo os batizados lá naquele país afro-medieval, Michael Jackson, George Michael, Michael Jordan, todos têm, todos passam pelo próprio, e único édipo. Condição humana das brabas, Santo Graal cheio de sangue humano. Quem não o viveu adequadamente quando criança estará condenado a repeti-lo até aprender sua dura lição.
Mil vezes a santidade, a castidade, o heroísmo, as drogas, o vício, a ideologia, o crime, a idolatria, o contrabando de armas na África, a troca de casais, trocar de cônjuge, faustão aos domingos: qualquer coisa é melhor do que encarar o próprio édipo na fase adulta. O édipo é bom de ser vivido quando a gente é criança, antes de pôr aparelho nos dentes.
Pra não pegar sotaque, né?"
| Hermelino Neder é compositor e professor de música. Venceu vários prêmios nacionais e internacionais por suas trilhas sonoras para cinema. É doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Tem canções gravadas por E-mail: nederman@that.com.br http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/diariodepressaoefama/ult2855u62.shtml |
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