MAR PORTUGUEZ
Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa, de quem mais poderia ser? Pena que muitas vezes só se percebe que valeu tarde demais, quando a dor já não permite mais que se enxergue o céu no espelho do mar. Talvez se secarmos as lágrimas...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O poder da ansiedade
Christine Garvin, a autora do artigo (primeiro link) fala da ansiedade e vai tecendo suas considerações. Aquela agonia que me faz lembrar quando acho que quero comer alguma coisa que não sei o que é. Aplica-se a quase qualquer coisa - se não tiver um objetivo pré-determinado, fico como barata tonta. O que não tem explicação, já que há várias coisas a fazer, úteis ou interessantes: arrumar a casa, ler um livro, assistir a um filme, andar na praia, escrever, plantar bananeiras...
Em vez disso, sinto o cérebro girando feito uma roda de hamster, sem propósito aparente. Começo a fazer uma coisa, completo ou não; paro; começo a fazer outra; paro; e assim por diante. Às vezes faço muitas coisas, outras vezes não. Ao final do dia, a sensação de inutilidade. É a falta de evidência perante uma sociedade que exige provas de que somos úteis, talvez. Quando se tem uma tarefa definida, um papel estipulado, parece (!) que as coisas se encaixam, ganhamos um rótulo, e todos se sentem confortáveis. Inclusive nós? Não. A ansiedade é bicho insidioso. Deve haver alguma estatística, já que os ansiolíticos estão na moda. Depois eu vejo se tem alguma coisa no Google.
Leio então no artigo, que é de um blog dos muitos que sigo sobre viagens no Twitter, que a autora está acometida desse mal. Mal? Se é mal ou não, sei lá. Incomoda. Tanto que fui reclamar com o médico. E o remedinho que ele prescreveu continua me dando sono. Desacelerou demais. Vou acompanhando. A autora cita outras pessoas, e um filósofo, Kierkegaard - e este diz que a ansiedade é positiva, porque está nos dizendo que há uma verdade maior por trás dela. Será? Bom. Aí ela cita uma outra pessoa, em outro blog, que tem cara de auto-ajuda - http://whitehottruth.com/, Danielle Laporte, que tem 3 passos para lidar com a ansiedade, e diz que vai trabalhar com isso no fim-de-semana para ver se encontra as respostas:
1- Encare a realidade. "Estou ansiosa."
2- Pergunte-se. "Então, porque estou ansiosa?"
3- Assuma a responsabilidade.
E vai acrescentar mais 2 passos à lista:
4- Para onde vou em seguida?
5- O que devo fazer para que isso se realize?
Ontem estava pesquisando o tema 'terapia cognitiva' para o meu trabalho de tradução, porque vi um livro de uma autora chamada Judith S. Beck, mas não quis comprar, porque custava R$ 75,00, e era muito específico, não seria algo que eu poderia guardar para consultas futuras - daí que seria esbanjamento puro e simples. Aprendi pouco, porque o filão em que a psicóloga resolveu investir foi o do emagrecimento. Ela tem suas credenciais (quem sou eu para questionar), e usou a teoria para ajudar (?) as pessoas a emagrecer. Não cheguei a descobrir se funciona. Num dos primeiros resultados da pesquisa no Google, há um vídeo interessante, disponível no YouTube, onde ela conversa com uma aparente paciente, que parece ter um problema de depressão. Em resumo, para lidar com o problema, em vez de tentar resolvê-lo em bloco, ela sugere que ele seja dividido em etapas. Razoável. Déa falava isso. Não me lembro se ela disse onde aprendeu isso - provavelmente na Faculdade de Administração, mas qual a origem, não sei.
Fez sentido. Americanos são práticos, não? Se resolvem ou não, não sei. Jogam Freud no lixo, tudo é fast food (vejam a quantas anda a obesidade por lá), mas quanto pragmatismo!
A questão toda é a manutenção: dá para manter? Ou amanhã já se esqueceu tudo e se repetem os velhos padrões? E se largarmos a pilulinha?
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Day by day
Às vezes eu acordo com uma música na cabeça. Às vezes aparece do nada. Infelizmente, existem aquelas músicas-chiclete - não tem problema se é alguma que se gosta, ruim é quando entra no ar como um daqueles perfumes de gente sem-noção (odeio perfume, me dá enxaqueca), propaganda, o pagode que rola na comunidade vizinha ou Kenny G (como não tenho tendência ao suicídio, o jeito é botar algodão metafórico nos ouvidos).
Há dois dias estou sem som, ando que é um estupor só. Não aquele da Emília de Monteiro Lobato ('indivíduo muito feio, de muito mau aspecto ou profundamente desagradável'), mas o outro, 'qualquer paralisia' - tudo por causa de um novo remedinho que provoca um sono incrível. Resolve a dor de cabeça e a insônia, mas tem esse "pequeno" efeito colateral: estou, assim, me sentindo um zumbi. Talvez seja só uma coisa diferente, em vez de tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo (tentar, eu escrevi, porque não não existe isso de fazer, de verdade), o tempo que eu consegui me manter acordada, fiquei lendo. Não deu aquela vontade desesperada de revirar o Twitter ou o Facebook e disparar tweets e posts como uma metralhadora giratória. Coisa insana.
Claro que é preciso ser um pouco insano pra acompanhar o ritmo de um mundo insano - estava lendo isso onde? - sobre algo que a rainha diz para Alice, de que é preciso correr duas vezes mais para se sair do lugar. Fazer o quê? Andar devagar ou correr? Tenho exatamente um livro que se chama 'Devagar', que discorre sobre o tema:
Em 350 páginas, Honoré introduz o leitor ao universo dos "desaceleradores do tempo" --organizações que decidiram combater a mania moderna de velocidade.
São grupos como o italiano Slow Food, que defende a alimentação sem pressa; o Città Slow, ou cidades do bem viver, onde diminuir o ritmo é lei; o japonês Clube da Preguiça; a norte-americana Fundação Longo Agora; e mesmo o SuperSlow, filosofia esportiva que recomenda musculação em câmera lenta.
O movimento conta até com uma conferência anual, a da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, que usa a palavra "eigenzeit" --do alemão "tempo próprio"-- para resumir suas convicções. O evento acontece em Wagrain, cidade nos Alpes austríacos.
São grupos como o italiano Slow Food, que defende a alimentação sem pressa; o Città Slow, ou cidades do bem viver, onde diminuir o ritmo é lei; o japonês Clube da Preguiça; a norte-americana Fundação Longo Agora; e mesmo o SuperSlow, filosofia esportiva que recomenda musculação em câmera lenta.
O movimento conta até com uma conferência anual, a da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, que usa a palavra "eigenzeit" --do alemão "tempo próprio"-- para resumir suas convicções. O evento acontece em Wagrain, cidade nos Alpes austríacos.
No entanto, para quem não está acostumada, a desaceleração parece mesmo o tal estupor. Porque parece que nesse processo, o espertinho do cérebro só engata para as coisas agradáveis - tudo que se parece com 'dever' vai para o saco. E aí, para resgatar isso, é como pescar uma baleia com vara de pescar (imagino, porque não sei pescar - já fui "pescada", sem querer - alguém, não me lembro mais quem, lançou a linha e aquele gancho se prendeu nas minhas costas; foi uma coisa! mas eu era pequena, não lembro bem...).
To see the buildings of Gaudi in Barcelona, smell roses in Uzbekistan, touch the coast of Norway, drink some vodka in Moscow, see stars in Honduras….that’s what I want to do
Before I die, I’d like to live my life the best I can. And when I will be dying, I would look in my past and I will think ” yes, I had great time.”
A música que apareceu na minha cabeça quando eu pensava neste post foi Day by Day. Foi uma verdadeira viagem no tempo, porque é de um filme de 1970, baseado em um dos evangelhos (Novo Testamento). Pode ser mais bizarro? Vejo no Google que a letra foi escrita por uma pessoa chamada Fredric Nietzsche. Really? Continua numa próxima. Eventually.
Day by day
Day by day
Oh Dear Lord
Three things I pray
To see thee more clearly
Love thee more dearly
Follow thee more nearly
Day by day
quinta-feira, 29 de julho de 2010
1001 noites
Uma ideia puxa a outra. Talvez tenha começado com uma das aulas de tradução, sobre a Escola de Toledo, o filósofo Averróis, com o entusiasmo da professora Cristina, que passou o filme para a turma - Al-massir (O Destino), de Youssef Chahine. Tínhamos um volume das 1001 Noites em casa, super bonito. Está com meu irmão. Não me esqueço das idas ao porão (mesmo, tínhamos uma casa com um quarto onde tínhamos estante, móveis da minha bisavó, mesa de botões do meu irmão, uma vitrola onde meu pai ouvia discos de 78 rpm, fazíamos festinhas de aniversário lá... tinha um chão de cimento tosco, meio avermelhado), para ficar lendo. Tinha estante no meu quarto também, mas o porão era um anexo. Livros espalhados já eram um costume, então.
Com a reflexão sobre o tempo, vêm as lembranças, associações. Fiquei até pensando no tal livro ''1001 lugares para se conhecer antes de morrer', algo assim, parece que tem derivações, como aquele 'Comeram o meu queijo' e daí saíram comendo toda a dispensa. Não é. Findou-se uma era, começou outra, fiquei refletindo (não parada, sequer me permiti, hábito que mamãe colocou, criancinha com agenda não foi inventada agora, já estava matriculada em um curso de extensão na PUC antes mesmo de me aposentar), e não tenho um projeto não senhora, resolvi me inspirar em Sherazade, depois pesquiso o simbolismo dos 1001 dias, ou do número 1001, está aí o link da Wikipedia.
http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Mil_e_uma_Noites
http://www.patriciamuller.com/101/
Arrastando os pés
Acordar todos os dias sem a "obrigação" de ir para o trabalho, depois de 30 e poucos anos é uma coisa meio estranha. Libertação para alguns, crise para outros, limbo para uns outros. Indiferença? Há ajustes há serem feitos. Porque no princípio é como se fossem férias. Depois é que vem o resto da sua vida. Diz o rabino Nilton Bonder algo como "a gente tem de planejar como se fosse viver para sempre e viver como se fosse o último momento". Há algo de budista nisso (do pouco que já li a respeito) - mas também não é preciso ser o Dalai Lama para lembrar da sabedoria popular, que "para morrer, basta se estar vivo".
A grande questão - pelo menos para mim - tem sido o tempo. Qualidade e quantidade. Medo da morte não é o ponto crucial, embora não tenha ponderado sobre isto (as besteiras já estão feitas, e as correções de rumo também, enquanto houver vida, é seguir fazendo o melhor, não tenho a menor vontade nem de me chicotear nem de cair na farra). Mas qualidade sim. O cérebro se tornou a estrela do século, desde que o Mal de Alzheimer foi "descoberto". De que adianta vivermos mais, com pernas bambas, dedos trêmulos ou artríticos, osteoporose, e/ou incapazes de lembrar das coisas mais elementares, e totalmente dependentes de terceiros?
O tempo ruge. É como aquela pedra enorme rolando atrás de Indiana Jones. E mesmo assim, acordo e penso: o quê?
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