terça-feira, 17 de outubro de 2017

Daquilo que nos envergonha

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, ganhou em julho de 2017 o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. O Cais foi encontrado em 2011, durante as escavações feitas para a reforma da zona portuária. Suas ruínas são os únicos vestígios materiais da chegada dos africanos no país.
Não era um simples ponto de desembarque: 4 milhões de africanos escravizados vieram para o Brasil em 300 anos de tráfico; 2,4 milhões entraram no país via Rio de Janeiro, e 1 milhão deles pelo Valongo, entre 1774 e 1831. Para se ter um parâmetro, os Estados Unidos receberam cerca de 400 mil em toda a sua história de tráfico.
O historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, da UFRJ, afirmou que o Cais do Valongo é o complexo negreiro mais importante do país na história da diáspora africana na era moderna.
A Intendência Geral de Polícia da Corte da Cidade do Rio de Janeiro fez construir o Cais do Valongo em 1811, para atender a antiga determinação do Vice-Rei, o Marquês de Lavradio, de 1779. Seu objetivo era retirar da rua Direita, atual rua Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados.
Ao longo dos anos, o Cais passou por sucessivas transformações. Na primeira intervenção, em 1843, foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do então futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar Cais da Imperatriz. As reformas urbanísticas da cidade no início do século XX fizeram com que o Cais da Imperatriz fosse aterrado em 1911. 
Ao ser nomeado patrimônio mundial, o Cais do Valongo fica no mesmo nível de outros lugares reconhecidos pela UNESCO como locais de memória e sofrimento, como um memorial em Hiroshima, no Japão, e o Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia. 
Penso que há uma tendência no Brasil ao "esquecimento" de sua história, de se tentar ignorá-la ou pintá-la de cor-de-rosa. Não se dá o devido valor à preservação da memória, como não se dá à ciência e à educação. E o racismo ainda vive. O Cais do Valongo tem um significado extraordinário para nos fazer lembrar dessa vergonha, desse crime contra a humanidade. Esperemos que a lição seja aprendida e que pelo menos o sítio seja preservado.
Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

Monumento ao Cais da Imperatriz - acervo (2017)

Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Outras fotografias

Sou a pessoa mais ignorante do planeta. Entro num museu e às vezes não tenho ideia do que estou vendo. Não sei descrever estilos de pintura, ou as particularidades desse ou daquele artista. Olho e gosto por algum motivo, mas se não registrar quem é o autor da obra, fica por isso mesmo, no visual. Não sei se vou mudar isso, se vou passar a ler biografias ou estudar os estilos de cada um, os movimentos artísticos e suas manifestações, ou se vou continuar preguiçosa, fotografando e depois pesquisando no Google/Wikipedia. Tanta coisa pra ler, tanta coisa pra aprender... 

Mas minha abismal ignorância é diretamente proporcional ao imenso prazer que tenho em visitar museus e descobrir o que me atrai, mesmo sem saber o porquê. O mundo é grande e cabe no breve espaço de uma tela. Haja museus.

Sigo a multidão. E chego a 'Guernica', exposta no museu Reina Sofia, em Madri. Talvez uma das obras mais famosas do famoso Picasso. No limite dos meus desconhecimentos, sei um mínimo sobre o pintor e essa obra em especial. Não entendo muito do cubismo, esse movimento artístico que tem Picasso como um de seus expoentes, nem sou exatamente apreciadora de todas as obras dessa fase. Mas me lembro que ainda era criança e vi um documentário na então TV Educativa que me deixou absolutamente fascinada. Possivelmente falava do artista, mas é certo que o que me marcou foi o desvendamento dessa obra que representa a revolta contra a guerra que fez da cidade de Guernica alvo de bombardeios nazistas alemães e fascistas italianos, a pedido do governo fascista espanhol. Mais uma tragédia na conta dos senhores da guerra.

Enquanto trabalhava no mural, Picasso disse:

"No painel no qual estou trabalhando, que deverei chamar de Guernica, e em todos os meus trabalhos recentes, claramente expresso minha repulsa à casta militar que afundou a Espanha em um mar de dor e morte." 

Após 35 dias de trabalho, ele terminou o mural em 4 de junho de 1937.

Há várias curiosidades envolvendo essa obra e o artista, mas me interessei por uma em especial. Diz-se que Picasso tinha um espírito mordaz tão expressivo quanto seu talento artístico, e um dia se viu diante de um oficial da Gestapo alemã que lhe perguntou, a respeito de Guernica: "Você fez isso?", e o artista lhe teria respondido, "Não, você fez".


Guernica, Museu Reina Sofia (Acervo/2016)

Também fico de queixo caído com detalhes de construções. Em geral prefiro-as antigas. Quanto mais, melhor, porque assim têm história pra contar. Como a Catedral de Sevilha, concluída no séc. 16, quando então se tornou a maior catedral do mundo, suplantando a Hagia Sophia, uma igreja bizantina cristã. É a terceira maior igreja do mundo e também a maior dentre as góticas. Mas por ser a única que sedia o bispado, é a maior catedral do mundo. Já foi até mesquita, durante o longo período de ocupação moura na península ibérica.



Catedral de Sevilha, Patrimônio Cultural da Humanidade (Acervo/2016)


Não vou entrar no mérito de como certas obras, como prédios ou estátuas, são produzidas. Mão-de-obra, dinheiro gasto, proveniência desses recursos e algumas homenagens questionáveis sempre haverão de me fazer refletir. 

Por exemplo, alguma vez ouvi dizer que as ruas de Ouro Preto e outras cidades coloniais tinham um calçamento chamado "pé-de-moleque" porque eram crianças escravas que as assentavam. Lenda ou não, é óbvio que escravos faziam o trabalho braçal no Brasil dessa época. Em outros países se encontrarão histórias parecidas e obras executadas com exploração maior ou menor de pessoas. Como os camponeses na Rússia do tempo dos tzares (imperadores).

Não há palavras que possam refletir o esplendor das obras de arte encontradas nos museus e prédios históricos de S. Petersburgo, na Rússia. Reflexões à parte, são deslumbrantes. O Hermitage e o palácio da imperatriz Catarina II são destaques, sim, porém há muito mais, como por exemplo, o museu Fabergé.

Antes ligava Fabergé aos ovos imperiais de Páscoa. Alguns estão no museu, hoje de propriedade particular. Outros estão espalhados pelo mundo. Além dos nove ovos criados pelo joalheiro Peter Carl Fabergé para os dois últimos tzares, há cerca de 4000 peças de ouro, prata, bronze, porcelana, e pinturas no museu. Obras requintadas, preciosas, que refletem um pedaço da história da arte do país. Mesmo que os ovos tenham se espalhado pelo mundo e coincidam com a agonia de um regime. 

O museu Fabergé fica no Palácio Shuvalov, um dos mais belos da cidade, que é linda. A coleção de ovos foi adquirida pelo bilionário Viktor Vekselberg ao magnata norte-americano Malcolm Forbes.



O ovo que não foi feito para a família imperial, mas para a Duquesa de Marlborough, em 1902 - (Acervo/2016)



Peças de outros artistas russos - Sala Branca (Acervo/2016)


Arte e dinheiro sempre estarão estreitamente vinculados, penso. Mas não preciso possuir nada disso, a mim me basta poder ir aonde as obras estiverem. Ou, se isso não for possível, contar com o Google e a Wikipedia para suprir a vontade de constatar que o ser humano é capaz de feitos extraordinários, quando quer. Por sua vez, também é capaz de destruir aquilo que outros construíram com tanto sacrifício. Desejo que o ímpeto de construir seja mais forte que o de destruir.




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Fotos e textos



Memorial a Shakespeare - Catedral de Southwark, Londres (2017)



British Library (2017)



Alnwick Castle (2017)


Disneyland - 2012



Sou exagerada. Se posso escrever vinte palavras em vez de uma, ou tirar dez fotos de um mesmo objeto, é o que faço. Diziam os antigos que o que abunda não prejudica. Pode ser que sim, pode ser que não. Posso ter mais opções na hora de selecionar o que vai restar no final, mas também posso ficar confusa. Deve ser o mesmo princípio dos meus pais e avós para acumular coisas, “um dia você vai precisar”. E vão se juntando coisas, palavras e fotos. Às vezes até pessoas. A gente guarda. É um hábito que se cria, e do qual é difícil se livrar. Há muita gente capitalizando a ideia de desapego: são as mudanças de hábito, de gerações pós-guerra, da carência, para as gerações do descartável.

O problema é justamente saber o que fazer com o que se acumula uma vida toda, e equilibrar as práticas de ajuntar e desapegar. O melhor é conservar lembranças. Viajando, por exemplo. Ou lendo, visitando museus, centros culturais, prédios históricos. De alguma forma, tudo isso se relaciona.

Não sei o que me move para decidir para onde quero ir ou o que desejo fazer. Leio, vejo filmes, séries, circulo pelas redes sociais e pelos sites de busca, e me inspiro. O que sobra de tanta informação é algo meio misterioso. Porque um lugar e não outro?

Uma coisa eu sei: literatura me influencia.

Resolvi fazer uma experiência, para tentar vencer a inércia que me paralisa quando considero escrever e, aproveitando uma iniciativa recente de organizar os arquivos de fotografias, pensei em pegar um número não muito grande de fotos avulsas, e buscar um elo entre elas. Qual o critério? Não vejo como ser totalmente aleatório, e certamente vou selecionar as que mais me atraírem. Concluo que um tema pode ser a chave para tocar o projeto. Com centenas de fotos digitais é melhor ter um mínimo de organização. Datas, pessoas, lugares?

Então, literatura e viagem. Ainda não passei por todas as fotos, mas dentre as recentes, percebi o mérito dessa ideia: ela estaria por trás das andanças, mesmo quando não intencionalmente? Vou averiguar.

Por enquanto, escolho quatro fotos, três deste ano de 2017, e uma de 2012.

A primeira foto é de uma escultura de Shakespeare, encontrada na Catedral de Southwark, em Londres. Sei que não fui lá por causa disso, pois desconhecia esse detalhe. O que eu queria era visitar a catedral mais antiga da cidade, porque tenho verdadeira fascinação por prédios históricos e patrimônios culturais. Quanto mais antigo, melhor. E no caso, há até evidências arqueológicas da existência de um templo romano anterior à igreja cristã, primeiro católica, hoje anglicana.

Porque Shakespeare? Essa era a paróquia que ele frequentava quando morava perto do Globe Theatre. Seu irmão, Edmund Shakespeare, foi enterrado no terreno da igreja em dezembro de 1607, mas o local exato é desconhecido. Um memorial dedicado a ele fica no chão da seção do coro. Uma bela janela de vitral é dedicada a Shakespeare, mostrando personagens de suas peças. E sob a janela fica a escultura do escritor. Atrás dele, percebem-se os detalhes da catedral e do teatro. A estátua de alabastro foi criada em 1912 por Henry McCarthy.

Depois, a foto mais óbvia: um detalhe da loja da Biblioteca Britânica, que tem livros à venda com edições próprias, e uma particularidade que adoro: recomendações personalizadas. Me faz lembrar a discussão levantada no filme ‘Mensagem para você’, com Meg Ryan e Tom Hanks. Ela tinha uma livraria pequena, com vendedores especializados, enquanto ele tinha uma megaloja, uma empresa que negociava livros como qualquer outra mercadoria. A cena ilustrativa dessa diferença é quando uma mulher está em busca de um livro infantil sobre “sapatos”, e o pobre vendedor fica obviamente perdido. Imagina, você chega na Saraiva e pede a um vendedor um livro infantil sobre castelos. Chega a ser cruel. A cerejinha do bolo é quando a personagem de Ryan, escondida num canto, dá as dicas sobre os livros da autora, Mary Noel Streatfield, e o vendedor pergunta como se escreve.

Agora fiquei com vontade de ler os livros. E os diálogos maravilhosos do filme, dirigido por Nora Ephron, uma ótima escritora, e escritos por ela e sua irmã Delia.

Passei ao castelo de Alnwick, construído no século 11 depois da conquista normanda, e habitado até hoje. Serviu de locação para filmes e séries, alguns muito famosos, como Harry Potter e Downton Abbey. Descobri que uma estátua de um antepassado do atual duque foi retratado em uma peça de Shakespeare. Mais literário que isso fica difícil.

Resgatei ainda uma foto de 2012 para lembrar das delícias de um clássico da infância, o mundo criado por Walt Disney. Disneyland, o primeiro parque, na Califórnia, o único construído sob a supervisão direta do criador, é um sonho para quem conviveu em algum momento de sua vida com os personagens desse mundo de fantasia. Muitos baseados em personagens da literatura infantil, ainda que adaptados. A imagem é do Coelho Branco da história de Alice, de Lewis Carroll. O filme de Disney é o que eu conheço. Confesso que tenho o livro mas não li. Vergonhoso, eu sei, mas é a verdade. Outra hora eu volto ao tema, por conta de uma maravilhosa exposição que vi em São Paulo sobre Alice no País das Maravilhas.

“É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”, diz o coelho no filme e eu endosso. Sempre é tarde quando eu acabo de escrever.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Celebrando Jane Austen: lá se vão 200 anos de sua morte

Como ainda é possível ficar triste com a morte de uma pessoa que já se foi há 200 anos? Já lemos biografias, vimos filmes, o conhecimento do fato se perdeu na memória, e mesmo assim lá vem a tristeza… primeiro pelo eterno inconformismo, porque tão cedo? E depois pela querência de não perder aquela pessoa, aquela personagem que transformamos em heroína na nossa mente, e que passou a fazer parte da nossa vida. Mas acusamos o golpe quando lemos o relato não de um biógrafo distante, mas daquela que esteve presente, da irmã/melhor amiga, que acompanhou nossa heroína de carne e osso literalmente até o último suspiro.



Seus últimos momentos (acervo) - 14/05/2017

“Eu mesma pude fechar seus olhos, e foi uma enorme gratificação poder prestar-lhe esses últimos serviços. Não havia nenhum traço de convulsão que desse a ideia de dor em sua aparência; pelo contrário, exceto pelo movimento contínuo da cabeça ela transmitia uma ideia de bela estátua, e mesmo agora, em seu caixão, há tamanha doçura e serenidade em seu rosto que é quase agradável contemplar. (...) A última triste cerimônia ocorrerá na quinta-feira pela manhã; seus queridos restos mortais serão depositados na catedral. É uma satisfação para mim pensar que eles repousarão em um lugar que ela admirava tanto; sua alma preciosa, ouso esperar, descansa em uma mansão superior. Que a minha possa um dia se reunir a ela!” *

Austen, Jane. THE LETTERS OF JANE AUSTEN (Kindle Locations 4023-4032). MonkeyBone Publications. Kindle Edition. 


A história de Jane Austen já é conhecida demais, não preciso ficar repetindo. Nem careço de falar de seus livros, já que o cinema se encarregou de tornar alguns bem famosos, e dar à autora fama e reconhecimento com que ela nunca sonhou. Não sou muito fã de reconhecença póstuma, mas nada posso fazer a respeito. Sigo a corrente de admiradores, e quando possível, vou atrás daquilo que evoca a presença da escritora.

Um breve histórico: meu primeiro contato com ela data dos tempos de faculdade, quando estudamos Pride and Prejudice na cadeira de Literatura Inglesa, na década de 1970.

Avançamos 20 anos, e vem a BBC produzir uma série muito fiel (1995) que arrebatou corações. Bom, digamos razoavelmente fiel, já que um dos motivos para a popularidade da série se deve a um mergulho num lago e uma camisa molhada de um dos principais personagens do livro, Mr. Darcy, representado pelo ator Colin Firth. O resto é história. Até hoje só não vi nenhuma adaptação de Mansfield Park (o menos favorito dos livros, vou ter de reler um dia para reavaliar).

Encerro a introdução porque hoje, passados exatos 200 anos da morte de Jane Austen, quero deixar de lado minhas opiniões sobre os livros, qual o favorito, como chorei de emoção ao visitar Chawton, última residência dos últimos anos de sua vida até se deslocar para Winchester para uma última tentativa de cura da doença que a consumia. Quero chegar à belíssima catedral de Winchester, onde visitei a última morada de Jane Austen.

Catedral de Winchester (Acervo) - 14/05/2017


Catedral de Winchester (Acervo) - 14/05/2017

É claro que a catedral merece a visita por si só, mas o maior movimento se vê em torno da pequena exposição com itens e cartazes relativos à vida da autora. Além da tumba, é claro, onde há uma inscrição elaborada por um de seus irmãos. Que sequer menciona seu singular talento.

O interior da catedral maravilhosa (Acervo) - 14/05/2017

A tumba - próxima da entrada, à esquerda (acervo) - 14/05/2017


"In Memory of JANE AUSTEN, youngest daughter of the late Revd GEORGE AUSTEN, formerly Rector of Steventon in this County. She departed this Life on the 18th of July 1817, aged 41, after a long illness supported with the patience and the hopes of a Christian. The benevolence of her heart, the sweetness of her temper, and the extraordinary endowments of her mind obtained the regard of all who knew her and the warmest love of her intimate connections. Their grief is in proportion to their affection, they know their loss to be irreparable, but in their deepest affliction they are consoled by a firm though humble hope that her charity, devotion, faith and purity have rendered her soul acceptable in the sight of her REDEEMER."

"Em memória de JANE AUSTEN, filha mais nova do falecido Reverendo GEORGE AUSTEN, antigo encarregado da paróquia de Steventon neste Condado. Ela partiu desta Vida em 18 de julho de 1817, aos 41 anos, após uma longa doença suportada com a paciência e as esperanças de uma Cristã. A benevolência de seu coração, a doçura de seu temperamento, e as extraordinárias qualidades de sua mente obtiveram o apreço de todos que a conheceram e o amor mais caloroso de suas conexões mais próximas. Sua dor é proporcional ao seu afeto, eles sabem que sua perda é irreparável, mas em sua mais profunda aflição são consolados por uma firme porém humilde esperança de que sua caridade, devoção, fé e pureza tornaram sua alma digna da presença de seu REDENTOR." *


O registro do enterro (Acervo) - 14/05/2017

Parece que o registro do sepultamento foi feito posteriormente, pois a data que consta no livro é anterior ao óbito em 2 dias. A partir de 1854 a catedral deixou de ser usada para essa finalidade.

Segundo memorial, de 1870 (acervo) - 14/05/2017


A exploração do nome e obras de Jane Austen parece ter começado cedo (apesar da extensa família, ninguém ficou com os direitos autorais). James Edward Austen-Leigh escreveu um livro sobre sua tia famosa, publicado em 1870, e com o lucro, mandou fazer uma placa de bronze, que fica em frente à tumba.

"Jane Austen. Known to many by her writings, endeared to her family by the varied charms of her character and ennobled by her Christian faith and piety was born at Steventon in the County of Hants, December 16 1775 and buried in the Cathedral July 18 1817. "She openeth her mouth with wisdom and in her tongue is the law of kindness"."

"Jane Austen, Conhecida por muitos por seus escritos, cara a sua família pelos vários encantos de sua personalidade e enobrecida por sua fé e piedade Cristãs nasceu em Steventon no Condado de Hants, em 16 de Dezembro de 1775 e foi enterrada na Catedral em 18 de julho de 1817. "Ela abriu sua boca com sabedoria e em sua língua está a lei da bondade"." *


Quiseram mais. Em 1898 fez-se uma campanha de doações, através de uma carta ao jornal The Times, assinada pelo Conde de Selborne, Lord Northbrook, W.W.B. Beach e Montague G. Knight de Chawton, para a confecção de um vitral em homenagem à escritora, que se juntaria aos dois memoriais já existentes. O design é de Charles Eager Kempe, e precisa ser descrito para ser entendido: há uma figura de Sto. Agostinho (Augustine em inglês, que tem uma forma abreviada de "St Austin", remetendo ao sobrenome de Jane); o rei Davi tocando sua harpa no centro; e na coluna inferior S. João, com seu evangelho, aberto nas primeiras palavras, "No princípio era o Verbo...". Uma inscrição em latim alusiva à escritora também foi incluída, que pode ser traduzida assim: "Lembrem-se no Senhor de Jane Austen que morreu em 18 de julho de 1817".

Pensam que acabou? Não. Há ainda quatro figuras carregando um pergaminho com sentenças em latim que fazem referência à natureza religiosa de Jane Austen.

Pode ter feito sentido na época, embora eu tenha minhas dúvidas (sempre acho esses vitrais obscuros), mas só com a legenda. E eu confesso que não reparei. Mesmo que se tente fazer uma fotografia de toda a janela, não há muito espaço (pelo menos para uma fotógrafa amadora) e as figuras não ficam tão nítidas. E mesmo que ficassem, quem vai achar que não se trata de mais um vitral do conjunto da catedral?

Vista parcial da janela (acervo) - 14/05/2017

A descrição da janela (acervo) - 14/05/2017

Não que ela não mereça toda e qualquer honra que lhe seja concedida. Apenas acho que faz toda a diferença quando isso acontece enquanto a pessoa está viva. Jane sempre dependeu da família para as mínimas despesas e para o básico, como a moradia. Há quem diga que o estresse decorrente da preocupação com sua situação agravou-lhe a doença. Ela foi a única que se estressou, pelo visto, já que o resto da família viveu bem mais.


O interior da catedral (acervo) - 14/05/2017

Mas quem se encantou com os textos produzidos por Jane Austen vai manter sua admiração e satisfazê-la da forma como puder. Ler e reler os livros, ver e rever os filmes, tentar adquirir itens que a evoquem... há um extenso mercado de livros que tratam de tudo que possa se relacionar à escritora, à época e lugares em que viveu, além de fan-fiction. Muitos textos interessantes têm aparecido e isso faz com que a memória não se apague.


Isso não tem fim... 

Celebrar quem ou o quê se ama é natural. E no caso, justificado. Vale a pena correr atrás desse sonho.


Winchester - 2017


* Traduções livres de minha autoria




sexta-feira, 5 de maio de 2017

Viajando com Game of Thrones - parte II

Às vezes a gente chega num lugar e se surpreende ao descobrir que algum evento relevante se passou ali. 

Bom é quando existe uma preocupação dos administradores com a memória, e os eventos são registrados em placas, porque nem todas as informações constam dos guias, mesmo os virtuais, que costumam ser atualizados mais rapidamente. 

Mas também acontece de se descobrir depois, tanto faz se fatos históricos ou curiosos, como, por exemplo, os vinculados à indústria do entretenimento ou à literatura, especialmente a de ficção. Imagino que os fãs apaixonados saberão de tudo. Não é o meu caso, e muitas vezes retorno de alguma viagem e só então vou aprender. Mas todo aprendizado é válido.

Falando em Game of Thrones, as locações são todas maravilhosas, mas não sendo possível conhecer/visitar todas, me dou por feliz por já ter passado por Dubrovnik e pela Irlanda, mas vou falar de Sevilha e Córdoba, na Espanha. Como nas outras cidades e países selecionados, há méritos suficientes nessas duas cidades para justificar a visita, independente da série de TV. Tanto que quando fui, nem sabia desse detalhe. O Alcázar de Sevilha, que se transformou no palácio de Dorne (Casa Martell), e a ponte romana de Córdoba, convertida na ponte de Volantis (Long Bridge of Volantis), são admiráveis.

Sevilha é a capital da região da Andaluzia, e alcázar é um castelo ou palácio construído na Espanha ou Portugal na época da ocupação dos "mouros" (muçulmanos), apesar de alguns terem sido construídos por cristãos e outros terem sido erguidos sobre antigas fortificações romanas ou visigodas. Uma prática muito comum na Europa. A maioria deles foi construída entre os séculos 8 e 15.

O Alcázar de Sevilha é tido como um dos mais belos da Espanha, e um dos que melhor representa a arquitetura chamada "mudéjar". Ainda usado pela família real da Espanha, é administrado pelo Patrimônio Nacional e o palácio real mais antigo ainda em uso na Europa, e foi designado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1987.

Pátio interno do Alcázar de Sevilha - 2016 (acervo)

Com 70 mil m2 de jardins e 17 mil m2 de área construída, não surpreende que tenha sido escolhido como locação para uma série que tem um visual fascinante e sofisticado. É ali que perambula a filha de Jaime Lannister e Cersei quando ele vai resgatá-la, e ali que aparece o líder da Casa Martell. Com os elaborados desenhos típicos da arquitetura árabe, não poderia haver melhor cenário.

Interior do Alcázar (acervo)


Interior do Alcázar (acervo)


Pátio interno do Alcázar (acervo)

Jardins (acervo)

Córdoba é outra cidade dessa região no sul da Espanha, cujo centro histórico também foi designado Patrimônio Cultural pela UNESCO. Nele fica a ponte romana que data do século 1, e atravessa o rio Guadalquivir. Muita gente circula por ela para admirar essa belíssima cidade. Mais uma razão para representar a ponte de Volanti, descrita nos livros de George R.R. Martin como uma das "maravilhas feitas pelo homem". Ela foi alterada pelas técnicas cinematográficas da série, mas ainda pode ser reconhecida pela base que a sustenta.

O ir-e-vir na ponte romana de Córdoba (acervo)

A vista lateral da ponte romana (acervo)




quinta-feira, 4 de maio de 2017

Viajando com Game of Thrones - Parte I

Gosto da série Game of Thrones, mas como sou muito dispersiva, a demora no retorno da próxima temporada já me tirou um pouco do entusiasmo quase obsessivo que tinha por ela. Se bem que é melhor mesmo ser desapegada. Tudo é impermanente, quanto mais séries de TV, e essa não está muito longe do fim. Não vou mencionar os livros porque confesso que só consegui ler o primeiro. Me irritei com o jeito de contar histórias de George R. R. Martin, com capítulos separados para cada personagem, e 300 mil famílias se embolando. À medida que ia lendo já tinha me esquecido de quem era quem. Ainda não me lembro, exceto das principais famílias, e olhe lá. Mas o genial mesmo é estar viajando e descobrir que se está diante das maravilhosas locações da série.

Alguns lugares são perfeitamente factíveis de se incluir em algum plano de viagem, como Croácia, Espanha, Irlanda do Norte, ou até o Marrocos, que não sei onde se encaixa nesses constantes conflitos na região do Oriente Médio. Já a Islândia e Malta eu considero lugares que não fazem parte de roteiros mais usuais, e mereceriam uma viagem específica.

Dubrovnik foi a principal locação selecionada para representar a central das intrigas, ou seja, Porto Real (King's Land). A própria configuração da cidade já descarta a necessidade de aparatos especiais. A cidade é tão medieval que se encaixa perfeitamente na narrativa. Ela foi fundada no séc. 7 e é Patrimônio Cultural da Humanidade. Sofreu muito com a guerra nos Balcãs, quando foi bombardeada por forças militares da Sérvia e Montenegro, mas foi reconstruída, e ainda há resquícios da destruição, o que não impede a percepção inequívoca de sua beleza.


Subindo a muralha - 2014 (acervo pessoal)


A muralha e a vista (acervo)



A característica rua medieval estreita (acervo)


O resultado trágico da guerra (acervo)

O turismo na cidade é intenso, e não é só por causa da série. Pode ser um passeio de um dia só, ou se prolongar a estada, mas é bom saber que o turismo intenso torna os preços caros, ainda mais se comparados com os do resto do país. Chega-se lá por terra, mar e ar. Partindo-se de Zagreb, a capital da Croácia, percorre-se a distância de 600 km em aproximadamente 6 horas. Não sei quanto tempo ou que lugares podem ser ponto de partida para se chegar de navio ou de ferry, mas sei que há inúmeros navios de cruzeiros que também aportam lá. Optamos pelo avião. Prático e rápido, partindo de Zagreb. No aeroporto há ônibus que levam à cidade fortificada. 


A estrada percorrida pelo ônibus (acervo)

Avistando a cidade fortificada (acervo)

Deslumbre-se passeando pelas ruas da cidade fortificada e pelas muralhas que datam do séc. 13. A vista é estonteante. 


(acervo)


(acervo)

Vale ressaltar que apesar da aparência ideal, a cidade passou por várias alterações cenográficas para torná-la a locação perfeita para a ficcional King’s Landing. O forte de Lovrijenac (Forte de S. Lourenço) é uma das atrações que podem ser vistas da muralha. Sua estrutura impressionante, em formato triangular com três níveis, foi construída em uma rocha que se ergue do mar, e se mostrou perfeita para representar o palácio real da série. Curiosa a inscrição em pedra que fica sobre a porta que conduz ao forte, "a liberdade não pode ser vendida por todo o ouro do mundo", se sobreposta ao intrincado fio de traições que perpassa as histórias dessas famílias inventadas, mas muito calcadas na história das monarquias e feudos medievais. 


O forte (acervo)

O ponto mais alto das muralhas é a fortaleza de Minčeta, que ambienta o fundo da Casa dos Imortais (House of the Undying), aonde Daenerys Targaryen vai procurar seus dragões no episódio final da segunda temporada.


A fortaleza (acervo)

Independente das referências literárias, preste-se atenção nos indícios do dia-a-dia da vida dos habitantes, porque assim podemos incorporar a história e a magia da ficção na realidade. Viajar é isso.



Aproveitando o sol (acervo)



Clarice: escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece u...