terça-feira, 17 de março de 2009

O MURO DA VIDA PRIVADA

"... Porque temos o apetite do escândalo, temos a raiva da destruição e o civilizado faz carnificinas morais apenas. Se todos prestam atenção malévola à vida dos outros - como uma resultante desse acúmulo de bisbilhotices perversas como expoente moral dessa derrocada do velho símbolo que separava o homem público do homem privado surge a exasperante fúria de informação, a fome feroz do noticiário, a irresponsabilidade da calúnia lida com um prazer satânico. Não acredite você que só o homem de notoriedade sofre tais coisas. Sofre talvez mais porque subiu e tem maior sensibilidade. Mas de fato todos sofrem. Espiam as repartições públicas, espiam os quartos, as salas, lugares secretos, espiam as bodegas, as casas modestas, os anônimos. A uma simples palavra os jornais fazem juízos integrais. Contam-se adultérios com os nomes por extenso das três vítimas (...). Como o homem é um animal com dois sentimentos fundamentais: o amor do lucro e o amor do gozo, as baixezas do dinheiro e os desvarios da carne são o escândalo permanente aqui, como em toda parte. Derrubado o muro da vida privada, há um sentimento de insegurança moral generalizado. Faz-se tudo às claras mesmo quando não se quer. E quando não se faça, a imaginação inventa como inventava contra Catão o antigo, que em Roma teve a tolice inútil de transformar o muro da vida privada numa casa de vidro."

Escrito em 1911 por João do Rio
Republicado pela Ed. Martins Fontes, 2006
E como diz o Eclesiastes, outro livro antiguinho, assim, de uns 5000 anos atrás, não há nada de novo sob o sol...

sábado, 14 de março de 2009

Na favela não tem crise, diz a Time. Não tem?

Na Time (http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1883862,00.html) - Postcards from São Paulo, o jornalista Andrew Downie, em Mar. 11, 2009, escreve que a favela não tem crise. Ele conta que Maria Irece da Silva tem uma loja na favela de Jardim Carumbé. Vende xampu, batons e esmaltes sem parar - 500 reais por dia só de cosméticos. Diz que a loja dela é um buraco na parede, mas está entulhada até o teto de géis de cabelo, condicionadores, tratamentos, bijuterias, e produtos de cabelo. Para ele, isso mostra duas verdades sobre o Brasil de hoje: uma, que entre as dançarinas sensuais que atraem as multidões no carnaval ou as milhares de mulheres comuns que enchem as praias todos os dias ou ainda as modelos glamurosas que dominam as passarelas, brasileiras ricas e pobres, pretas e brancas, novas ou velhas, todas dividem uma firme convicção de que nada é mais importante do que uma boa aparência. Isso tudo ratificado por uma antropóloga carioca chamada Mirian Goldenberg, que diz que "mulheres brasileiras simplesmente tem de parecer bem e cosméticos são o primeiro investimento que elas fazem", e "se elas não investem, perdem em todos os sentidos. O corpo é um bem, uma forma de ascensão social. Uma mulher gorda, ou que não faz as unhas, ou que deixa as raízes dos cabelos escuras é vista como suja ou preguiçosa. No Brasil, a boa aparência é não somente uma questão de beleza, como de higiene".
E mais importante, talvez, seria a segunda verdade revelada pela rotatividade da tal loja na favela: mesmo enquanto as economias mundiais estão no meio de uma contração dolorosa, a brasileira teria uma expectativa de continuar crescendo. Os governos brasileiros não são conhecidos por suas políticas econômicas e gestões econômicas prudentes, e a hiperinflação e débitos que assolaram a nação nos anos 1980 ainda são uma memória vívida e assustadora para muitos. Mesmo assim, altas taxas de emprego, sucessivos aumentos no salário mínimo e um programa de assistência nacional que tem distribuído renda aos pobres tem ajudado a demanda doméstica brasileira a se manter forte.
Da Silva acha que "não tem como dar errado com esse tipo de negócio. Mulheres não saem de casa sem batom". (Realmente, mas eu também faço questão de não esquecer o cérebro...)

Se essa matéria tivesse sido escrita pela imprensa oficial eu não estranharia. Mas que raios é isso? Onde fica essa favela? R$500 por dia? Êta negócio bão! A pergunta que não quer calar: o negócio é regular? Porque estatisticamente, de cada 10 negócios que são abertos, 9 vão pro buraco. E com dívida. Só de taxa, tarifa, imposto, etc.
Bem, fora as baboseira sobre as mulheres brasileiras, oh clichês!, o culto ao corpo (é só no Brasil, não tem isso mais em lugar nenhum...), e mais os recentes prognósticos da queda no PIB, de crescimento ZERO ou até negativo, desemprego, será que alguém poderia 1) me dizer realmente como andam os negócios nas favelas? e 2) lembrar ao jornalista e à antropóloga que o cultivo ao corpo são se origina na Grécia antiga? (Mas era a "mente sã com o corpo são", e não essa cultura BBB descerebrada que se espalhou pelo mundo...)

quarta-feira, 11 de março de 2009

The guy next door

The guy next door is a vampire. No, I'm not talking True Blood here. Which, by the way, sucks... Hmm... I watch it hoping against hope for a signal, anything remotely as cool as the books, but till now I've found none.
Well, about this guy. Nah. He is what he is. Just taking, not giving anything. Let him burn. Which is what I should do with True Blood. No more histerics from the female characters, fake accents, "over" sex exhibitions, overextended demonstrations of vampire blood effects.... the best of Charlaine Harris stories (even though it is just entertainment or chick lit or whatever) is that she really can tell one. What you see in TV is like a bunch of things taken from the book(s), distorted and amplified to fit the model. I'm still looking for the good actress in Anna Paquin to justify the Globe Award.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quem realmente lê? (Parte II)

Abro a página da BBC de hoje, e deparo com uma coluna de Ivan Lessa, com o título 'De ivros e sua falta de leitura'. Pelo visto, ele ficou tão intrigado quanto eu com a pesquisa sobre a mentira que os internautas pregaram sobre os livros que não lêem. Eu esqueci de dizer que leio de tudo. Inclusive a Sophie Kinsella que Lessa disse que não conhece e é bastante lida pelos ingleses. Acho que pelos americanos também, pois uma de suas personagens mais conhecidas virou filme (a Shopaholic), acho que ainda não lançado (pelo menos aqui). Também coincidentemente, ele aborda o BBB. Parece óbvio. George Orwell deve estar se revirando na tumba ao saber que o Big Brother virou esse deboche midiático. Da mesma forma que Jane Austen. Que sequer foi citada na pesquisa - e olhe que é uma das maiores romancistas inglesas. O que será que as pessoas andam lendo?

domingo, 8 de março de 2009

Crise econômica ameaça medíocres ganhos femininos

Por Thalif Deen (http://www.ipsnews.net/news.asp?idnews=45965)

Nações Unidas, Mar 3 (IPS) - A crise financeira global que vem se espalhando e derrubando banqueiros, investidores e especuladores, também vem tendo um impacto devastador sobre alguns dos mais vulneráveis e marginalizados grupos da sociedade, aí incluídos mulheres e crianças.
A crise deve levar milhões a uma profunda pobreza e resultar na morte de milhares de crianças, segundo alerta um novo estudo publicado pela UNESCO.
O Sub-Secretário Geral para Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, Sha Zukang, ressaltou que historicamente, as recessões pesam mais sobre as mulheres que sobre os homens. As mulheres tem empregos mais vulneráveis que os homens, sub-empregadas ou desempregadas em maior proporção; carecem de proteção social e tem acesso limitado e controle sobre fontes econômicas e financeiras.

sábado, 7 de março de 2009

Quem realmente lê?

A Reuters publica em 05/03 um artigo sob o título "A maioria dos ingleses mente sobre os livros que leu". Segundo eles, um estudo conduzido pelo website World Book Day entre janeiro e fevereiro, com 1342 pessoas, mostrou que 2 entre 3 pessoas fingiram ter lido livros que nunca leram - a maioria para impressionar o interlocutor. O livro mais citado era '1984', de George Orwell (42%), em seguida, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Ulysses, de James Joyce. A Bíblia vinha em quarto lugar, e o livro de Barack Obama sobre seu pai, em nono.

Fico imaginando o que uma pesquisa dessas revelaria por aqui. Fora o fato de que são poucos os brasileiros que frequentam a escola por mais de 5 anos, creio que depende de quem pergunta e depende de quem responde. Essa coisa de impressionar funciona. E também o ambiente, o contexto. Digamos: na média, adolescentes parecem não gostar muito de ler. É uma observação pessoal, que se estende a boa parte dos adultos que conheço, e não estou falando de pessoas de baixa renda. Imagine-se, então, um adolescente que queira fazer parte de um grupo, recém-chegado, e goste de ler. O que é mais "fácil", ele se enturmar aderindo aos hábitos do grupo, ou impondo seus hábitos ao grupo?

Ou seja: se o suplemento de literatura entrevistar alguém, a pessoa vai citar um clássico, se for alguém da turma, citará Crepúsculo. Resiliência, my friends. 1984 é um livro que eu julgo imprescindível, mas guardei Ulysses 30 anos e li por teimosia. Tem seus méritos, mas abominei o monólogo de Molly Bloom. Levei o mesmo tempo para ler Cervantes (foram minhas duas missões) e hoje o considero o melhor livro do mundo. Uau. Nunca li Proust, mas acho que todo mundo deveria ler a Bíblia.

Enfim, é tão fácil ler. Mas é mais fácil ver televisão... Ler carece de treino, e faz pensar, o que é um perigo. Especialmente nas mulheres. Nossa, mulheres que pensam, aonde isso levaria? O mundo, como se conhece, não seria mais o mesmo. Melhor deixar como está, um dia inteirinho só para as mulheres, esse dia 8 de março. E deixar que elas continuem ganhando menos do que os homens, e que eles tenham preferência nos empregos, no acesso à educação, que possam continuar transmitindo aids, estuprando, espancando, engravidando, e largando seus filhos por aí. Feliz Dia das Mulheres, especialmente para aquelas que não sabem ler. Para cada ano de educação formal que a mulher adquire, são dois a mais que seu filho ganha. Feliz Dia das Mulheres.

http://www.reuters.com/article/oddlyEnoughNews/idUSTRE5244MG20090305?sp=true

sexta-feira, 6 de março de 2009

Paixão

Ela se apaixonou de imediato. O que era impossível, fora de um folhetim. A diferença de idade era proibitiva: ela era 20 anos mais velha que ele. Nada de discutir aqui os méritos da cegueira do amor. Até porque a paixão era unilateral, e era dessas coisas que pertenciam ao reino da fantasia, da imaginação ativa. Podia até ser um daqueles filmes de 1 minuto de que se fala. Ou um sonho. Um comercial... Ela olhava para ele e deixava a mente vagar, com mais fantasias do que um desfile de escola de samba. Ele nem olhava para ela. Ou, se olhava, não via nada. Como Eveline, personagem de James Joyce, não a reconhecia, ela não era ninguém.
E como podia ser? Eles nem se conheciam! Já tinham se visto uma vez ou outra no trabalho, mas era só. Ela não tinha mais idade para isso. A adolescência já não era mais do que uma vaga lembrança.
O que era, então? Mulher-criança, parou no tempo, no tempo psicológico, quer dizer. Porque na idade cronológica, nas experiências, vivências e rugas, tudo passou. Engordou, emagreceu, teve filhos - eles são a prova viva de que não dá mais para enganar ninguém. E 20 anos de diferença?

Não, não é paixão. Parando pra pensar, é uma breve viagem no tempo. Se ela tivesse 20 anos a menos, aquele seria um homem por quem se apaixonaria... ou poderia se apaixonar... Ah, bom.

Clarice: escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece u...