quarta-feira, 11 de julho de 2018

Atualizando roteiro para Londres, parte I

Pediram-me um roteiro para Londres, sob a justificativa de que eu conhecia bem a cidade. Protestei, porque não quero passar por propaganda enganosa, mas a amiga levantou um argumento intrigante, que me convenceu. Ela me disse, dentre outras coisas, que por gostar tanto da cidade, teria uma visão diferenciada, o que poderia ser útil. No final das contas, todos nós que viajamos alguma vez procuramos as indicações que nos sejam úteis e nos façam conhecer um pouco sobre aquilo que queremos ver, além de nos permitir fazer as necessárias seleções, já que turistas costumam ter pouco tempo e precisam aproveitá-lo ao máximo.

Costumo contar com a companhia e a ajuda luxuosa de uma grande amiga com quem tenho viajado, mas enquanto ela anda light pela vida e tem uma memória melhor que a minha, eu sou acumuladora, guardo muita coisa que me faça lembrar os locais que visitei (mapas, ingressos de museus, folhetos), além de arquivos com roteiros e informações relevantes. Resolvi então rever tudo que eu tinha escrito sobre essa cidade que eu adoro visitar, botar em dia as informações. Bom exercício de organização e oportunidade para visitar na memória os bons momentos e lugares. Preciosa internet. 

Aos trabalhos, então.

Assim que se instalar, compre seu cartão Oyster, para usar no transporte público. Serve para metrô e ônibus. As tarifas variam de acordo com as zonas. Cheque no site para os procedimentos: https://tfl.gov.uk/fares-and-payments/oyster/what-is-oyster
Turistas podem obter informações interessantes também no site https://www.aprendizdeviajante.com/?s=metr%C3%B4+de+londres.

Informações úteis:
Embaixada do Brasil em Londres: http://londres.itamaraty.gov.br/pt-br/
Endereço: 14-16 Cockspur St, St. James's, tel +44 20 77474500
Site oficial de turismo do Reino Unido no Brasil: https://www.visitbritain.com/br/pt-br#sxvREpWpiIXlrUt0.97

Uma busca no Google sobre as atrações de Londres dá 4,9 milhões de resultados. Provavelmente, cada link indicará as mais interessantes e um número igual de roteiros. Há os sites que indicarão ou tentarão indicar os lugares diferentes, sugerindo que o roteiro turístico não é tão cool. Acho bobagem. Sou daquelas que acha que há coisas básicas que devem ser feitas e lugares tradicionais têm de ser visitados. Outros eu dispenso por opção, como a Estátua da Liberdade ou fazer o tour no Palácio de Buckingham. Mas como não ir ao MET, ao Central Park, ao Big Ben, ou a Notting Hill?

Big Ben, 2015 - acervo

Os roteiros dependem, então, das preferências pessoais. Tem Londres para todos os gostos. O meu é pautado pela cultura e pela história. Um museu sempre vai me chamar a atenção. O que não me impede de ser fascinada por ícones pop como Harry Potter, por exemplo. Daí a alegria de saber que a Warner tem um estúdio a pouca distância de Londres, onde se pode passear pelos cenários e objetos ligados aos filmes da saga.


Warner Bros Studio, 2015 - acervo

Parti de uma sugestão de 5 dias, combinando minha experiência e gosto pessoal com indicações diversas. Já adianto que se trata de um roteiro compacto, porque turistas sempre ficam ansiosos para encaixar tudo que for possível por causa do tempo limitado que têm. Mas como aprendi que frequentemente não se consegue dar conta de tudo que se pensa e se põe no papel, fica a critério de cada um segui-lo ou tentar segui-lo fielmente.

Quem vai permanecer por tempo prolongado já pode se dar ao luxo de flexibilizar e expandir qualquer roteiro, ou simplesmente flanar. Que eu acho particularmente a melhor forma de se conhecer um lugar. Sempre fiz muito isso, mesmo na minha cidade, já que viajar é um prazer caro. O que eu não deixo de fazer é pesquisar um pouco antes de sair. Não vejo outra maneira de descobrir que um lugar onde existe um prédio moderno ou mesmo um vazio tem uma história interessante.


sábado, 7 de julho de 2018

Paixões: Klimt

Imagine que você tem alguma paixão, não por uma pessoa, mas por um artista ou uma música ou um lugar. Não sei se existe alguém que não tenha pelo menos uma preferência por alguém ou algo. Não falo da experiência estética pura e simples, mas do que desperta emoção. No meu caso, cito Jane Austen, Klimt e Beethoven. Não é um sentimento genérico. São certas experiências certeiras como flechadas de Cupido. É visitar Chawton, a última residência de Jane Austen; ou ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven; ou parar estatelada diante da obra 'O Beijo', de Klimt... e chorar. Isso para uma pessoa que não tem esse hábito. 

Eis que se entra num local divulgado como "centro de arte digital" para se vivenciar uma experiência de imersão em obras de arte, dentre as quais as de Klimt. 

Pausa para a informação enciclopédica. Gustav Klimt, nascido em 14/7/1862 e morto em 6/2/1918, foi um pintor simbolista austríaco, e membro proeminente do chamado movimento artístico Secessão de Viena. As obras de Klimt incluem pinturas, murais, desenhos e outros objetos de arte, e seu principal objeto era o corpo feminino, ainda que pintasse também paisagens. Uma de suas grandes influências foi a arte japonesa. Ficou famosa sua fase dourada. Diz-se que viagens a Ravenna e Veneza, conhecidas por seus belos mosaicos, inspiraram sua técnica e suas imagens bizantinas.

Não sei a razão que me levou a gostar desses artistas. Não sei quando eles ganharam esse status de favoritos no meu gosto. Não sei usar linguagem erudita ou técnica para descrever qualquer de suas obras. Mas sei que eles vieram e ficaram.

E por isso, mergulhar na obra de Klimt, ser rodeada por ela, não em pequenas telas estáticas pregadas na parede (embora estas possam ser intensas, como dirá quem se aventure a contemplar 'O beijo', no Belvedere, em Viena, ou o retrato de Adele Bauer, na Neue Gallery, em Nova York), mas ocupando todo o espaço disponível, paredes, tetos, chão, em constante movimento, surgindo e se dissolvendo ao som da música de Beethoven, é uma experiência poderosa. Emocionante. De deixar qualquer um boquiaberto.

Se pudesse, iria lá não uma, mas dez vezes. Ou mais. Seria ótimo se tivesse o lugar só para mim, mas não havendo o que fazer a esse respeito, vivamos a imersão plena. 

Adele Bloch-Bauer II (foto acervo)

Tree of Life (acervo)

Atelier des Lumières 2018 (acervo)

O movimento (acervo)

Atelier des Lumières 2018 (acervo)


O Beijo (acervo)

Atelier des Lumières 2018 (acervo)

Atelier des Lumières 2018 (acervo)

Atelier des Lumières 2018 (acervo)

Adele Bloch-Bauer, the Woman in Gold (acervo)




quinta-feira, 5 de julho de 2018

Chocolate

O caminho do chocolate (foto do acervo)

Às vezes penso que a vida só fica interessante quando viajo. Nem vou especular sobre os possíveis motivos para isso. Imagino que seja pela mesma razão por que gosto de ler. O dia-a-dia é tão tedioso ou algumas vezes tão ruim que tentamos encontrar uma forma de fugir dele. Não vejo melhor forma de fazer isso que recorrendo à arte, à literatura, ou, quando possível, às viagens. A gente sabe que tem que voltar, cair na realidade, mas enquanto se transita por um mundo diferente, o resto fica em compasso de espera. Ainda estou esperando a oportunidade de testar essa outra realidade por tempo mais prolongado. Enquanto isso não ocorre (minha esperança ainda não desapareceu), aproveito as ocasiões em que me vejo diante daquilo que entendo como o melhor que os humanos podem produzir. Aprecio a beleza natural, mas sou, definitivamente, uma pessoa urbana. 

Consideremos essa invenção maravilhosa que é o chocolate, que vem lá do México, com evidências de seu uso em 1900 a.C. pelo povo Olmeca. O 'kakawa' dos Olmecas virou 'chocolatl' na linguagem dos Astecas, e daí seguiu para a língua espanhola e para o mundo. Pensamos em chocolate como as barras, trufas, a bebida quente ou gelada, mas nas origens não era assim. Mesmo hoje é difícil imaginar que aqueles pedacinhos super amargos que resultam do processamento das sementes acabem virando uma daquelas delícias que conhecemos hoje.


Chocolate: a origem (acervo)

Chocolate pode engordar, causar alergia, conter propriedades antioxidantes, quem sabe proteger o sistema cardiovascular. Tudo depende da quantidade. Fala-se em "vício". Será? Chocolate é versátil. Os maias o misturavam com pimenta e baunilha, para conter seu amargor. Era líquido e considerado afrodisíaco. Sem contar que era uma iguaria para as elites, e usado até como moeda de troca muito valiosa. Outros ingredientes foram adicionados ao 'chocolatl' ou 'xocolatl', como açúcar de cana, canela e anis, para melhor adaptá-lo ao paladar dos invasores europeus. Na Espanha, adicionou-se açúcar, ou mel, ou ainda baunilha. A baunilha vinha junto com especiarias, para acentuar seu gosto. E, aparentemente, dar dor de barriga. 

Uma receita azteca: vai uma pimentinha aí no seu chocolate? (acervo)


O chocolate ganha um adicional: o açúcar (acervo)

O chocolate conquistou a Europa. E aumentou o trabalho escravo entre o séc. 17 e o 19, já que o processamento do cacau era essencialmente manual nessa época. Desenvolveram-se processos para essa atividade, inclusive a descoberta do chocolate sólido, e vários nomes surgiram e se consolidaram nessa indústria. Infelizmente a exploração do trabalho continua. O maior produtor de cacau, a Costa do Marfim, tem milhares de crianças trabalhando na produção, e afirma-se que elas possam ser vítimas de tráfico ou escravidão. 30% das crianças com menos de 15 anos na África subsaariana são trabalhadoras, a maioria em atividades de agricultura, aí incluída a cultura do cacau. A maior parte dos grandes produtores de chocolate, como a Nestlé, compra cacau na bolsa de commodities onde o cacau marfinense é misturado com outros.

Em 2009, uma organização britânica afirmou que 12 mil crianças tinham sido traficadas em fazendas de cacau na Costa do Marfim. Essas crianças escravizadas estariam trabalhando em condições difíceis e abusivas.

Como pode algo que nos dá tanto prazer causar tanta dor? Veja em https://www.greenme.com.br/viver/especial-criancas/2469-9-multinacionais-do-chocolate-que-exploram-criancas.


Às vezes a realidade nos cutuca quando estamos à toa, flanando ou comendo um chocolate. Não vou deixar de pensar que viajar, seja como for, é uma experiência que só agrega. Eu posso (e devo), por exemplo, deixar de comprar produtos dessas marcas. É uma pequena ação, mas que se multiplicada pode fazer diferença.

Prazer é melhor com consciência (acervo)

É viajando também que nos aproximamos da história que apenas conhecíamos dos livros. Museus são uma das melhores maneiras de fazer essa ponte. Não há somente museus com obras de arte, pinturas, esculturas, etc. Há museus muito específicos, como aqueles dedicados ao chocolate. Nem sabia que existiam, mas já pude conhecer dois. Um em York, Grã-Bretanha, e outro em Paris. Ambos interessantes e que nos conduzem pela história dessa iguaria, mas o de Paris vai além, pois nos apresenta peças históricas relacionadas ao chocolate. Dentre outras, livros, cerâmicas, xícaras, descrições, e uma ótima demonstração de como fazer um bombom. Sem esquecer de abordar o aspecto social e político, ao se alinhar à Rainforest Alliance, entidade que apoia a biodiversidade e a preocupação com trabalhadores e consumidores. 

Guardar o espírito crítico é essencial, e degustar vários tipos de chocolate da melhor qualidade é divino. 







Fotos do acervo pessoal
Choco-Story - Paris 2018



terça-feira, 12 de junho de 2018

Viajar é algo mágico

Você planeja uma viagem, e algo acontece que tem o poder de atrapalhar seus planos, temporária ou definitivamente. Se pararmos para pensar, as possibilidades são muitas. Mau tempo, greves, condições médicas... Sou supersticiosa: não conto para ninguém até praticamente o retorno. Exceto, naturalmente, os familiares mais próximos. Aliás, para isso existem reservas que podem ser canceladas. Recomendo. Ou à decepção se juntará o prejuízo. 

Mas de tudo que pudesse imaginar, certamente não acreditaria em um pé fraturado. Quando então se aprende que um quinto metatarso pode fazer estragos jamais cogitados. Se eu fosse aquele jogador famoso, precisaria de cinco psicólogos para me fazer entrar em campo outra vez. Você encara um médico na emergência que anuncia uma imobilização de dois a três meses. Outro tanto de fisioterapia. E você vê aquele dinheirinho que se esforçou tanto para ganhar voando pela janela. Cabe recurso: uma segunda opinião ameniza o desastre. Um mês e com fisioterapia você pode viajar. Não é tão simples assim. A imobilização forçada tem consequências sérias para quem já tem uma certa idade, e sofre de alguns problemas de coluna. Você vai ou fica?

Eu fui. A bagagem cheia de remédios. Não foi fácil. Anda, senta, alonga, levanta... Nessa hora, mesmo se tratando de uma cidade que é melhor percorrer a pé, há que ceder à necessidade e à praticidade: vamos de Uber. 

A compensação vem na forma de um coração que fica muitas vezes mais quentinho, de tantas maravilhas experimentadas. Mesmo que a dor se instale depois e não dê sinais de partir. Quem pode vivenciar o Atelier des Lumières (http://www.atelier-lumieres.com/) e não ficar absolutamente deslumbrada? Só me resta torcer para a recuperação plena, mas essa experiência ninguém me tira. Com um cérebro saudável, óbvio.


Imperdível. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Você deve visitar o Museu de Belas Artes

O Rio de Janeiro pode não ter um Louvre (Paris), um Museu Britânico (Londres) ou um Hermitage (S. Petersburgo), mas tem ótimos museus que registram a história da cidade e têm peças relevantes. Um deles é o Museu de Belas Artes, ali em frente ao Teatro Municipal, pertinho da Cinelândia (dá pra ir de metrô), no centro da cidade. Dá até pra fazer uma visitinha na hora do almoço, pra quem trabalha nas imediações. O que é preciso é ir. Simplesmente ir.

Tem exposições pontuais? Tem. Descobrem-se pelos cadernos de cultura divulgados pela mídia ou até passando-se na porta e dando uma checada nos banners. A entrada custa R$8 (com meia-entrada para estudantes, professores, e talvez outras categorias). Tem site pra averiguar detalhes e agenda  (http://mnba.gov.br/portal/). O museu também tem página no Facebook (https://www.facebook.com/MNBARio/).

O museu foi inaugurado em 1938, mas sua história começa com a chegada da família real portuguesa no Brasil, em 1808. Em sua "encarnação" anterior era a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, fundada pelo rei e que funcionava em prédio próprio, construído por Grandjean de Montigny, um dos integrantes da Missão Francesa. A Escola Real virou Academia Imperial e depois Escola Nacional. O prédio do atual museu é uma combinação de estilos, e foi tombado pelo IPHAN em 1973.

O acervo partiu das obras trazidas por D. João, e foi ampliado com o tempo, inclusive com a incorporação do acervo da Escola Nacional, além de aquisições. Conta atualmente com cerca de 15 mil peças, entre pinturas, esculturas, desenhos e gravuras de artistas brasileiros e estrangeiros, além de uma coleção de arte decorativa, mobiliário, arte popular e um conjunto de peças de arte africana.

Seja lá o que for que esteja acontecendo, é preciso ir. Pelo menos uma vez, embora eu recomende várias. São muitas peças, e o museu não é pequeno. Demanda tempo e preparo físico. Também não sei se todos os ambientes já estão com a refrigeração funcionando plenamente. Ano passado tive de interromper a visita porque um dos ambientes estava com refrigeração nula, impossível de ser tolerada no verão saariano da cidade. 

E em pelo menos uma das alas do museu sempre tenho que dar uma espiada: o corredor onde estão as esculturas greco-romanas, ou a 'Galeria de Moldagens'. A primeira vez que vi, muitos anos atrás, não dei muita bola porque achei que eram "simples" cópias. Talvez porque estivesse diante de uma exposição de esculturas de Rodin. Ainda bem que a gente aprende a aprender. Só recentemente fui descobrir que eram mais do que isso.

A maioria das moldagens expostas nas duas galerias do segundo piso do MNBA é de peças realizadas do início do século XIX até 1928. Foram feitas em gesso com a técnica de moldagem direta nas esculturas originais distribuídas nos principais museus europeus. Este procedimento não é mais permitido, o que torna a coleção mais importante. Minha favorita é a réplica da Vitória de Samotrácia, cujo original está no Louvre. Posso dizer sem vergonha que me impressionei mais com ela do que com a Mona Lisa. Não falo de técnicas ou arte, porque não entendo nem de uma nem de outra. Mas de impacto mesmo. Acho incrível, e é um prazer poder revê-la no MNBA.

Um último destaque (melhor do que falar sobre as obras da coleção é vê-las) fica para Antínoo, uma escultura singular - não se trata de cópia, mas um original romano da época do imperador Adriano, encontrado em 1878 nas escavações patrocinadas por D. Teresa Cristina, imperatriz do Brasil, nas imediações de Roma, em Veio, antiga cidade etrusca. Fora o valor inerente à obra, bom saber que alguma figura política relevante do país já se interessou por cultura.

Vitória de Samotrácia (c. 190 a.C., autor desconhecido), encontrada na ilha de Samotrácia (1863). 
Uma das últimas moldagens do original em mármore existente no Museu do Louvre, Paris.
Foto: acervo pessoal


Afrodite/Vênus de Milo (c. 100 a.C.).
Original no Louvre.
Foto: acervo pessoal
Observem-se os olhos vendados. Cada um interprete como queira.


Outra Afrodite, de Arles (Atenas, c. 390-330 a.C.).
Original no Louvre.
Foto: acervo pessoal

Obra sem título de Anish Kapoor (Índia, 1954).
Foto: acervo pessoal


Fotos da obra do museu.
Foto: acervo pessoal

Painel Alegoria das Artes, da Academia Imperial.
Foto: acervo pessoal

A ceia do Senhor, atribuída a Antônio de Holanda (1450/1500 - 1550/1570).
Foto: acervo pessoal


A Primeira Missa no Brasil, 1948, de Candido Portinari.
Foto: acervo pessoal

Antínoo, estátua romana encontrada em 1878.
Foto: acervo pessoal


Mais informações interessantes constam do site do museu, mas vale ressaltar uma: o Google Arts & Culture, que reúne coleções de mais de 1000 museus e instituições de arte e cultura do mundo, acaba de incluir o MNBA. Com a digitalização de parte do acervo, facilita-se o acesso a seu patrimônio (https://www.google.com/culturalinstitute/beta/partner/museu-nacional-de-belas-artes?hl=pt-BR). São mais de 500 obras em alta resolução, com direito a passear pelas galerias através do Google Street View.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pinakotheke

Na Grécia ou Roma antigas, pinacoteca era um prédio que continha pinturas, possivelmente afrescos, ou quadros, esculturas, e outras obras de arte. 
Atualmente o termo é usado também para designar uma galeria de arte com foco preferencial em quadros. Já fui à Pinacoteca de Paris, à de São Paulo, e agora me surpreendi em descobrir que existe uma no Rio de Janeiro. E que boa surpresa.
Vi o anúncio de uma exposição e fui procurar o tal lugar. Não que tenha uma localização obscura. Está em plena Rua São Clemente, Botafogo, no número 300. Dependendo de onde se vem, há transporte público (ônibus) que passa na porta. E não é muito longe da estação de metrô. Pode-se dizer que fica no sopé do Morro Dona Marta. 
A gente chega meio preocupada: vai que está havendo algum conflito, coisa nada incomum hoje em dia. E se descobre o casarão, que em outras épocas deve ter sido mansão de algum nobre do império. Não consegui descobrir as origens da casa, que me deixaram bem curiosa. Por enquanto vou me contentar com o fato de que fizeram um bom trabalho de restauração e manutenção. 
Para entrar é preciso tocar uma campainha. Possivelmente mais um dos reflexos da insegurança já mencionada. Não é uma conclusão surreal. 

Quando entramos, nos esquecemos de tudo. Exposições em espaços limitados têm um ar intimista, ou talvez tenha sido o fato de que não havia mais ninguém além de mim e de alguns funcionários que circulavam. Nada invasivos, como em algumas exibições, o que me deixa incomodada e paranoica. Parece segurança de loja achando que a gente vai surrupiar alguma coisa. Só quando já estava quase saindo vi um homem explicando ou apresentando algumas obras a outro.
De cara devo dizer que não sou muito fã de arquitetura que vou chamar de modernista. Penso em Brasília, em Corbusier... e como não sou arquiteta, falo de opinião meramente leiga. Confesso que gosto de um rebuscado, um meio-termo que "limpe" o exagero de um rococó, digamos assim. Mas me vi fascinada pela exposição dedicada a Oscar Niemeyer, em como algumas linhas podem se transformar em arte delicada e expressiva, me fazendo ver que menos é mais. Ou que há espaço para todo tipo de arte. Como no amor e na literatura, toda arte vale a pena. Nem que seja para se desgostar (sem histeria).
Há obras de outros artistas sigificativos da cultura nacional, como Tomie, Portinari, Ceschiatti, sem contar as belíssimas fotografias que têm arquiteto e artista como objeto, cada uma de um autor diferente. E há também um vídeo com o próprio Niemeyer. Fiquei assistindo por um tempo, mas a qualidade do som não ajuda. Vou pesquisar mais tarde onde é possível se ver na internet, nem que seja com um fone de ouvido. Pelo pouco que vi, vale a pena. E vale também circular no exterior do casarão. Há belas esculturas espalhadas pelos jardins, e o espaço é realmente admirável.
Funciona de segunda a sexta, das 10 às 18 h.

 Obras produzidas por Niemeyer em alusão ao golpe militar de 1964 (acervo)

Niemeyer por Evandro Teixeira, 2007 (acervo)


Niemeyer por Walter Carvalho, 2009 (acervo)

Os candangos de Bruno Giorgi (acervo)

Anjo, de Alfredo Ceschiatti, 1969 - Modelo para Catedral de Brasília (acervo)

Cabeça de Menino e Cabeça de S. Francisco - provas de painel de azulejo, Portinari, 1944 (acervo)

Afro-Brasileiro, Joaquim Tenreiro, 1971 (acervo)



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Daquilo que nos envergonha

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, ganhou em julho de 2017 o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. O Cais foi encontrado em 2011, durante as escavações feitas para a reforma da zona portuária. Suas ruínas são os únicos vestígios materiais da chegada dos africanos no país.
Não era um simples ponto de desembarque: 4 milhões de africanos escravizados vieram para o Brasil em 300 anos de tráfico; 2,4 milhões entraram no país via Rio de Janeiro, e 1 milhão deles pelo Valongo, entre 1774 e 1831. Para se ter um parâmetro, os Estados Unidos receberam cerca de 400 mil em toda a sua história de tráfico.
O historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, da UFRJ, afirmou que o Cais do Valongo é o complexo negreiro mais importante do país na história da diáspora africana na era moderna.
A Intendência Geral de Polícia da Corte da Cidade do Rio de Janeiro fez construir o Cais do Valongo em 1811, para atender a antiga determinação do Vice-Rei, o Marquês de Lavradio, de 1779. Seu objetivo era retirar da rua Direita, atual rua Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados.
Ao longo dos anos, o Cais passou por sucessivas transformações. Na primeira intervenção, em 1843, foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do então futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar Cais da Imperatriz. As reformas urbanísticas da cidade no início do século XX fizeram com que o Cais da Imperatriz fosse aterrado em 1911. 
Ao ser nomeado patrimônio mundial, o Cais do Valongo fica no mesmo nível de outros lugares reconhecidos pela UNESCO como locais de memória e sofrimento, como um memorial em Hiroshima, no Japão, e o Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia. 
Penso que há uma tendência no Brasil ao "esquecimento" de sua história, de se tentar ignorá-la ou pintá-la de cor-de-rosa. Não se dá o devido valor à preservação da memória, como não se dá à ciência e à educação. E o racismo ainda vive. O Cais do Valongo tem um significado extraordinário para nos fazer lembrar dessa vergonha, desse crime contra a humanidade. Esperemos que a lição seja aprendida e que pelo menos o sítio seja preservado.
Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

A história do sítio arqueológico - acervo (2017)

Monumento ao Cais da Imperatriz - acervo (2017)

Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

Sítio arqueológico do Cais do Valongo - acervo (2017)

Clarice: escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece u...