sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Inquietude


Saio pela primeira vez em praticamente um mês que não seja para médico ou correlacionados. Desço a rua, entro na loja de óculos, experimento um, saio sem comprar, continuo, vou até a livraria, estoque medíocre de pockets (um tablet, por favor!), compro uma revista e um livro de ficção para adolescentes. Quero ver se me inspiro para escrever.


Sigo para a Santa Satisfação para almoçar. Uma massa gostosa, minha Coca habitual. Passo no supermercado para uns básicos e pego um táxi de volta para casa. 


Quase normalidade. No caminho vou olhando de um lado para o outro tudo o que faria se estivesse realmente "normal". É a impossibilidade de ficar simplesmente parada. Lógico, só de estar andando é um milagre - a gente não se dá conta das coisas básicas que faz todos os dias, só quando fica incapacitada de fazê-las. E a inquietude bate.


Já li e reli livros. Fico de um lado para o outro olhando títulos na estante. Quero pegar minha escada e ver as caixas que estão sobre os armários mas não posso. Me agonio. Estou com cinco livros no meio. Leio, paro. Não me prendem a atenção. Nada me prende a atenção. A televisão também não está mais conseguindo mais me atrair. Não posso ficar muito tempo sentada, portanto, nada de computador. Irritação.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Inércia

Dor. Parece ciático. Nimesulida resolve. Quanto tempo, dois, três dias? Será que arnica substitui? Só tem um comprimido de nimesulida e não tem arnica. Amanhã.
Duas semanas, três hospitais, uma ambulância no meio, uma internação, morfina, impedimento para andar, sentar, leseira, insônia. 
Amigos, presenciais, virtuais.
BlackBerry, Twitter, Facebook, Gmail. Conectada. Por vezes bom. Bom também poder desligar. Não deu ansiedade.
Li. Parei.
O mundo continua. A Tunísia se rebelou, o Egito segue o caminho. Discutem o papel da internet nessas rebeliões.
Um por todos, todos por um?
O que um pode fazer? Diz meu filho que nada. Posso sentar aqui e escrever. O clichê: se uma árvore cair na floresta e não houver ninguém a escutar, que diferença faz? 
Todo mundo quer ser diferente. Quer?
Eu quero andar livremente e sem dor. Quero escrever também sem dor por estar sentada. Passo boa parte do dia deitada, ligo a TV. De repente, um canal mostra um programa chamado 'Doenças do sangue'. A imagem é de um menino com as pernas amputadas, até mais ou menos os joelhos, e muito inchadas. Ele sente muitas dores, alguém o está tratando, porque além disso há uma ferida. Quase sinto vergonha da minha dor. Mas nesses dias não posso ignorá-la. Ela é real. Não vou ou não pretendo me refugiar nela para ignorar as dores e sofrimentos alheios e com isso justificar uma eventual inércia ou egocentrismo exacerbados. Mas não sou aquela que se alista. Sou a que fica à distância. Alguma distância é necessária para a preservação. Do quê não sei. Minha alma, talvez. Não, meu coração. Sinto que existe algo no centro do meu peito que dói quando estou magoada. Quero evitar isso. Se possível.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Arrumando gavetas

Arrumar o conteúdo de uma única gaveta cheia de papéis é tarefa comparável aos 12 trabalhos de Hércules. "Jogar fora" equivale quase a cortar fora um pedaço da gente quando se trata de livros e papéis, porque cada um conta uma história e desencadeia memórias que tornam a tarefa se não impossível, muito demorada. É como abrir uma porta de um lugar que não se visitava há muito. Como prática reflexiva, pode ser uma coisa interessante, mas não é nada recomendável como método de organizar uma casa.

Não sou capaz de descartar uma carta escrita por minha melhor amiga, ou um bilhete escrito em um papel reciclado feito por ela mesma. Poderia digitalizá-los? Sem dúvida. Mas não vou fazê-lo, assim como não vou jogar fora todos os meus livros. Pretendo comprar um tablet, especialmente para facilitar minha vida com relação aos livros que tenho de importar, mas nada substitui o prazer de manusear um livro, passear em uma livraria, zapear os títulos, pegar os volumes, ler as capas e esquadrinhar os conteúdos. Já faz tempo que não vou a uma biblioteca, mas elas são imprescindíveis. Comparo-as a templos.

O que eu tenho de aprender a fazer é não guardar mais coisas que deixaram de ter valor para mim, material ou emocional. Por mais bonitinhas que sejam. Meus envelopes e papéis de cartas que colecionava, de que adianta? O mofo tomou conta deles e eu mal escrevo cartas – só uma de minhas amigas ainda resiste ao computador. Além do mais, minha letra se tornou ilegível por falta de prática.

Ruim mesmo é ficar guardando coisas que nos lembram de fatos que simplesmente não deveriam sair de onde estão, que é o passado, para nos assombrar no presente. O que eles representaram acabou. Se é que existiu. Só servem para nos trazer saudade, e às vezes saudade de algo que nunca existiu de verdade. Razão maior para que sejam descartados. Se não foram antes, é porque lembravam algo bom. Hoje, retirados os filtros, resta reconhecer que é o que é, efêmero registro de algo que não é mais. Guardar pra quê?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Martha Beck's Plan to Get Unstuck and Follow Your Dreams - Oprah.com

Martha Beck's Plan to Get Unstuck and Follow Your Dreams - Oprah.com

Parece que metade da vida é um processo de aprender a apagar fogos, silenciar, desviar-se das pedras do meio do caminho (ou evitar aquelas que lhe são jogadas no meio da testa). A coisa vai acontecendo, simplesmente. Há momentos em que ocorre um drama mais significativo, mas, de forma geral, é só a vida seguindo e a gente inventando truques para não ser mais magoada. Chega-se a um ponto em que a pessoa se perde e não se reconhece. É claro que para não se reconhecer é preciso que ela se lembre de como foi um dia, e se ela se lembra, ainda há esperança. Porque se o processo está muito adiantado a falta de consciência é plena e é como se outro espírito tivesse se apoderado de seu corpo. Lógico, lembrar-se não é garantia de nada. Imagine-se uma pessoa que está completamente paralisada, que é incapaz de dar um passo, porque não sabe para onde vai ou por qual razão. Paralisia do espírito, da alma, psicológica, não sei como chamar. É uma agonia, não há nada nem ninguém a segurando e no entanto ela está imobilizada num universo onde só ela existe e não há comunicação possível.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

How to Live an Extraordinary Life

How to Live an Extraordinary Life

Preguiça total de escrever. Bloqueio. Incapacidade. Paralisia. Inabilidade. Estupidez. Inaptidão. Falta de talento. Preguiça.

O que é?

Li um artigo sobre a atriz Vera Fischer relatando que agora ela é escritora. Ela teria escrito sei lá quantos livros em menos de 1 ano. 10, eu acho. E a lápis, pq ñ usa computador. O primeiro tem o título de 'Serena'. Achei interessante o título. Não sei o conteúdo, nem vou criticar. Primeiro pq criticar hoje em dia dá o maior barraco. A gente abre a boca (ou melhor, risca a pena, digita) e ñ somente é insultada, como se bobear ainda é capaz de ser espancada ou até assassinada (vai que os malucos te descobrem?).

Diz a belíssima atriz e pintora (que tb pintou mais uns 200 quadros tb em curtíssimo espaço de tempo) que não fica pensando muito. Vai e faz. Invejinha. Nisso ela tem razão. Quem fica só pensando muitas vezes não faz nada. Ou demora tanto que perde a oportunidade de fazer. É uma enrolação só. Procrastinação.

O que seria melhor: ler e reler Jane Austen e repetir que não dá para ser igual, ou chutar o balde e pegar o lápis como a dona Vera?


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Foi assim

Eram vizinhos, ou mais ou menos, a tia dele é que morava na casa ao lado. Dia de domingo, quando acabava a missa, as mães davam uma folga, iam trocar uma ideia. Subúrbio é assim, ou era, sei lá, a rua uma extensão da casa da gente, ainda mais em vila. E não tinha shopping pra hipnotizar o povo. Às vezes o garoto aparecia. Botava o olho comprido. Azul. Assim, como os príncipes das histórias da Disney. Já a mãe da menina tinha o instinto das madrastas das histórias. Marcava sob pressão.
Bom era quando tinha festinha de rua. Não era nada grande - se fosse uma festa junina, por exemplo, tinha terreno baldio onde se podia acender uma fogueira, soltar fogos de artifício, essas coisas, nada sofisticado. E lá estavam as famílias, agregados, o garoto e a garota. E a mãe.
Dia de clube. O vizinho era sócio de um clube legal, com piscina, e lá ia todo mundo. Todo mundo. 
Num dia desses dias se comemorava um aniversário na casa da vizinha. Algazarra total, porque a turma bebia bastante, música alta, pessoas falando. A menina se cansou daquilo e se afastou. Foi para o muro, pra ficar olhando para a rua da vila. Dali ela via a casa dela e toda a vila, porque estava no alto da ladeira, e ainda conseguia ver a rua lá embaixo pelo vácuo do terreno baldio. De repente, sentiu alguém atrás dela, chegando bem de pertinho, até praticamente não restar mais espaço entre eles. O menino pôs um braço sobre seu ombro, e falou baixinho no ouvido dela, “quero te namorar”. Ela soltou o ar – nem sabia que tinha prendido – e o tempo parou.

Clarice: escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece u...